Espólio do Amor
08/12/2008

Da nossa casa – que sempre foi tua, não levo nada, nem o que chegou a ser meu. Deixo o quadro, o som, a poltrona, o amor. Deixo os retratos para que você tenha o trabalho de trocá-los. No espólio do amor entra o espaço que você tanto quis e, nele, deixo uma vaga livre de garagem.
Da divisão dos sentimentos, me sobram quinquilharias diversas. Aborrecimento, ciúme e culpas que infelizmente vão me conduzir até que eu amadureça. Do amor, faço um pacote com papel pardo e guardo num lugar fora do caminho, para que não esbarre nele toda vez que te veja.
Você fica com as músicas que ouvimos juntos por mil vezes. Eu retomo as que gostava antes de você. No espólio, fico com pelo menos o Radiohead, o Philip Glass, o Tom Waits e o Chico. Você fica com as descobertas que fez.
Os amigos que eram seus antes de mim, continuam só seus. Já os amigos em comum, sofrerão também os males do espóllio do nosso amor, sem saber a quem dar ouvidos e ombro. As outras pessoas amigas ou não, que de alguma forma contribuíram para o nosso mal, usando-nos ou usadas, você pode manter se quiser. Eu não faço mais questão.
Do nosso espólio, você fica com o bairro onde mora e eu com o bairro onde saíamos. Fico com aqueles cafés que sempre foram meus. E você com o restaurante bacana que aprendi a ir por sua causa e acabei frequentando depois.
Fico também com o caminho até o trabalho, que aliás, mudei. E no espólio das ruas, quarteirões e meios de transporte, óbvio e invencível como uma partida de Banco Imobiliário, você fica com seu carro. Eu fico com toda a frota de carros do mesmo ano e modelo que o seu – dos quais hei de conferir as placas sempre que passarem por mim ou eu por eles.
Do espólio, fico com a saudade da casa. Do som que você fazia do lado de dentro ao vir me pegar na porta. Do cheiro daquela sua receita especial feita na hora. Saudade da cor da luz que entrava pelo banheiro no sábado de manhã.
No espólio do nosso amor, como não precisamos dividir as lembranças fico com todas.
08/12/2008 at 18:20
Post perfeito para o meu dia e minha situação imperfeitas. Você é um cara muito incrível com as palavras.
08/12/2008 at 19:08
Espólio…
Como você é materialista hein… :S
Ou o contrário…:D
10/12/2008 at 09:59
Putz… atemporal. Incrivel meu velho.
10/12/2008 at 16:01
posso xingar você? acabei de enxugar o rosto, molhou tudo de novo.
10/12/2008 at 17:38
quem faz a divisão? se puder optar, deixo para o outro o constrangimento dos encontros acidentais e o desconforto dos encontros necessários.
11/12/2008 at 19:17
Sensacional. Vc tá se superando, hein…
11/12/2008 at 21:47
Quem morreu, o amor ou você?
12/12/2008 at 16:57
Sensacional o texto e por mais incrivel que pareça é oq eu estou passando agora. Muito bom Maca!
12/12/2008 at 21:05
eu quero minha caixa do woody allen o resto que se foda.
13/12/2008 at 07:56
Belo texto meu velho, emocionou…
14/12/2008 at 12:28
um dia, da mamória mais triste emergirão os restos do afeto. inchados, encharcados, porém intactos.
neste momento, você poderá apanhá-los na mão –como conchas pré-históricas trazidas por uma maré ancestral.
você irá admirar a beleza daquelas arquiteturas retorcidas e depois os devolverá, não ao esquecimento, mas à prateleira das coisas que foram importantes e que já não ferem mais.
(da sabedoria dos meus inventários)
14/12/2008 at 19:41
só não teve lágrima porque estou em pleno inferno astral. mas apertou o peito.
você fica com seu carro e com toda a frota de carros do mesmo modelo – dos quais hei de conferir as placas sempre que passarem por mim ou eu por eles.
vc mais uma vez dizendo as coisas que não se dizem…
e esse seu espólio, assim escrito, tem um quê de crueldade. porque escancarar contabilizando todos os detalhes que se dividiu com a pessoa, assim numa planilha do excel, é de cortar a alma em mil. a da pessoa e a sua.
um beijo. e saudade.
06/01/2009 at 14:57
Virei fã.
07/01/2009 at 09:18
já li várias vezes.
é tão bonito.
10/01/2009 at 23:27
já passei por isso…vc traduziu em palavras o que a gente só consegue sentir num momento assim…vc está cada vez melhor! que 2009 seja doce…
12/01/2009 at 12:41
obrigado pelos comentários. não quis responder na hora, mas acho injusto não dizer nada, afinal, cada um ao seu modo, virou parte do espólio do amor.
assim, obrigado à caixa preta pela beleza das conchas pré-históricas. à tatit, obrigado por fazer uma justa menção à outra parte, àqueles que ficam com a nossa outra metade. ao gil, por se emocionar. à ale, por me xingar ;-). à deusa’s friend por lembrar de parte importante do espólio: o constrangimento.
ao túlio, sua resposta é “o amor”.
a dgrull, obrigado pela sinceridade e por me mostrar novos horizontes. à nice, obrigado, muito obrigado, pelos votos.
à priscilla, ao z, à fabiola, à sica, ao barbieri, ao igor, por deixarem o meu espólio falarem por si. e pelas palavras doces.
um 09 com amor, mas sem espólio para todos nós
16/03/2009 at 12:48
Sensacional.
Simples e absurdo.
Grande abraço.
Pedro Cavalcanti
24/05/2009 at 00:27
Sr. Palito, vc é demais….pena não existir mais!
27/05/2009 at 19:17
é muito injusto eu te fazer perder tempo lendo os meus textos quando eu só ganho ao ler os seus.