
Quem é o Sr Palito? “Um cara normal num mundo nem tanto”, vocês já ouviram isso. Mas faz tanto tempo e aconteceu tanta coisa desde então. Aquela descrição não serve mais, ficou curta nas mangas, apertada no peito e não gosto mais de cinza.
Sr Palito foi “canditado à doenças modernas”, vocês também sabem. Aliás, foi ou é? Bem, ele tentou continuar por mais tempo, mas, sim, foi. Sr Palito tinha férias acumuladas, mas nunca poderia desfrutá-las. Precisava sofrer os males da vida.
Precisava ou precisa? Bem que tentou continuar, mas toda essa melancolia não faz mais sentido. Não faz mais sentido honrar as histórias dos seus ancestrais e incorrer nos mesmos precalços.
Sr Palito adoraria se manter fiel ao que sempre foi. Continuar lutando contra o mundo com seu amor sobretaxado de impostos. Continuar olhando para fora no lugar de avaliar a parte que lhe cabe. Gostaria de sempre se julgar culpado. De julgar culpado o outro. Gostaria de, em sendo culpado, não ser mais responsável.
E, definitivamente, ele continuará assim. Afinal, Sr Palito foi criado dessa forma, para ser é o que é: o fascínio pela dor que não pode ser curada, a saudade por algo que nunca teve, o vazio que sempre achou dever do outro preencher. O conforto que sente apenas no inverno.
Sr Palito sempre será. Quem não pode mais continuar sendo, sou eu. Assim, me despeço, querido Palito. Vou me lembrar de você taciturno, com o rosto apoiado numa das mãos. Querendo ser feliz, ainda que só de mentirinha.
- Depois de “Espólios do Amor”, não havia mais nada a ser dito pelo Sr Palito. Quanto a mim, volto a escrever quando encontrar um jeito que me reflita melhor. Ou pelo contrário, que não me reflita nada. Até lá, um beijo e muito obrigado a todos que vieram e voltaram.
Espólio do Amor
08/12/2008

Da nossa casa – que sempre foi tua, não levo nada, nem o que chegou a ser meu. Deixo o quadro, o som, a poltrona, o amor. Deixo os retratos para que você tenha o trabalho de trocá-los. No espólio do amor entra o espaço que você tanto quis e, nele, deixo uma vaga livre de garagem.
Da divisão dos sentimentos, me sobram quinquilharias diversas. Aborrecimento, ciúme e culpas que infelizmente vão me conduzir até que eu amadureça. Do amor, faço um pacote com papel pardo e guardo num lugar fora do caminho, para que não esbarre nele toda vez que te veja.
Você fica com as músicas que ouvimos juntos por mil vezes. Eu retomo as que gostava antes de você. No espólio, fico com pelo menos o Radiohead, o Philip Glass, o Tom Waits e o Chico. Você fica com as descobertas que fez.
Os amigos que eram seus antes de mim, continuam só seus. Já os amigos em comum, sofrerão também os males do espóllio do nosso amor, sem saber a quem dar ouvidos e ombro. As outras pessoas amigas ou não, que de alguma forma contribuíram para o nosso mal, usando-nos ou usadas, você pode manter se quiser. Eu não faço mais questão.
Do nosso espólio, você fica com o bairro onde mora e eu com o bairro onde saíamos. Fico com aqueles cafés que sempre foram meus. E você com o restaurante bacana que aprendi a ir por sua causa e acabei frequentando depois.
Fico também com o caminho até o trabalho, que aliás, mudei. E no espólio das ruas, quarteirões e meios de transporte, óbvio e invencível como uma partida de Banco Imobiliário, você fica com seu carro. Eu fico com toda a frota de carros do mesmo ano e modelo que o seu – dos quais hei de conferir as placas sempre que passarem por mim ou eu por eles.
Do espólio, fico com a saudade da casa. Do som que você fazia do lado de dentro ao vir me pegar na porta. Do cheiro daquela sua receita especial feita na hora. Saudade da cor da luz que entrava pelo banheiro no sábado de manhã.
No espólio do nosso amor, como não precisamos dividir as lembranças fico com todas.
o que são todos os sentimentos senão ar? o que são as pessoas senão água? tudo tão irreal.
trabalho de Peter Horridge.
Abrir é abrir-se.
21/11/2008
queria contar para vocês. mas está tão dificil digitar e digitalizar as coisas nestes tempos de manufacturas. talvez escreva cartas para todos, para cada um.
um carta com letra de mão e selos (muitos selos), contando que, à princípio, todos aqueles dias sobre tempestades oceânicas e fundo do mar emergiram com um tesouro escondido: as chaves.
não é era um baú cheio de dobrões de ouro, era a chave para acessá-lo.
trancar talvez não seja a maneira certa de garantir a posse de algo. ou alguém. abrir as celas e deixar os fantasmas saírem me parece mais sensato que conviver com os fantasmas na falsa ilusão que estão dominados.

Representação que a Pat criou para uma frase minha. Se não entender de imediato, leia em voz alta :-)
não havia estrelas para orientar a pequena embarcação. não havia mapas do tesouro. no vazio que sentiam os tripulantes (um vazio liso como os peixes), pairava uma estranha calmaria – vinda, talvez, do fato de aceitarem a condição da deriva.
os monstros marinhos beliscavam o convés e serpentavam livremente ao redor deles.
a certa altura, deram-se conta que não navegavam pelo oceano. a bússola não estava danificada e a direção que apontava não era sempre o sul: a pequena seta mirava para quem a segurasse.
içaram velas. o mais forte deles subiu o mastro, ficaria de vigília sabendo que a terra firme não estaria além do horizonte, estaria em algum lugar dentro dele mesmo.
Sob o profundo vazio oceânico.
23/10/2008
nas profundezas, aguarda para dar o bote. o pequeno submergível avança por mil léguas submarinas sem se dar conta da caverna escondida entre lacuanas e carências. breves tentáculos, silenciosos como desejos, perfuram a água.
suspiros são interrompidos. sentem-se atemorizados e perdidos. a lanterna, outrora corajosa, entrega-lhes um sombrio e profundo vazio. o ataque é invisível. o ousado casulo metálico, portador de uma mensagem de paz, é envolvido pelas milhares de ventosas.
as verdades ocultas se mostram. são irracionais e despedaçam os visitantes. foram renegadas há eras e fazem muito estrago quando incomodadas.
Tum-dum.
21/10/2008
anos se passaram até que se desse conta daquele imenso vazio. não importava quantos mastros ou velas içasse, estava sempre no meio de nada. mesmo com as cartas naúticas não havia chegado.
descobriu-se pirata saqueando sentimentos. percebeu que até o vento que soprava era cobrado. das certezas que havia construído, tão poucas continuavam de pé depois daquela tempestade.
fugiu num bote. o diabo vinha encontrá-lo à nado.
Lacun_s
09/10/2008
Lacuna, vulgo Carência. As brechas que separam a gente. Espaços em branco a serem preenchidos, os livros que não chegaram a ser escritos, o poema que ficou na cabeça e se dissipou como nuvem tóxica.
Lacuna é o nada delimitado por cercas de arame farpado que, se avistadas do céu, revelam formas retangulares ou quadradas. Em proporção bem maior, entretanto, as cercas formam figuras menos geométricas, como o contorno de um coração, de um pássaro, de balões.
Lacuna é o abismo que fica entre as pessoas ou, eventualmente, o espaço onde os vazios se encontram. Quadrado com quadrado, coração com coracão, pássaro com pássaro.
Imagem de Andy Callahan
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Preencha suas próprias lacun_s
08/10/2008
Assuma suas carências para si mesmo. Assumir não significa se sujeitar. Os abismos estão aí, por que não, afinal, reconhecê-los no lugar de sempre saltá-los?
Preencha suas lacunas com você mesmo. Não com o outro.
Imagem daqui.
Tentáculo do momento: Solidão.
05/10/2008
É incrível como os bonecos Silêncio, Solidão e Saudade – que ganharam estes nomes por acaso e foram escondidos (ou ainda não) também por acaso, acabaram misturando suas histórias com as minhas.
No momento, não consigo esconder Solidão por alguns motivos de ordem prática, mas também por querer/precisar ou simplesmente me sentir bem na companhia de Solidão.
Tudo me leva a crer que a busca não é mais sobre objetos e seus esconderijos. A busca por Solidão, Saudade e Silêncio diz respeito aos mapas que conduzem a perguntas e respotas escondidas dentro de nós.
- Tá, poético demais ate mesmo pra mim. Mas só para dividir.
- Não sei da onde pequei a imagem acima. Sorry pela falta de créditos.
Só pra quebrar toda essa poesia dos últimos dias.












